Colocando a vida em bits e cebolas.

Ainda não consegui sair dos momentos filosofantes e nostálgicos, apesar do niver já ter passado. Bom, acho que o niver era só uma desculpa para exteriorizar essa fase meio deprê que estou passando.  Entendo que faça parte da vida dos seres pensantes. Graças a Deus, não tem nenhum problema grave ocorrendo comigo  nesses dias. Passei sufoco nos últimos dois anos em virtude da doença da mãe e sofri(o) muito com a sua partida agora em abril. É uma fase de reestruturação. Ao mesmo tempo, oportunidades boas apareceram. Estou bem feliz com minha vida profissional. O Doutorado tá meio devagar, mas tô curtindo. Tô encalhada já há um ano e meio, mas (ainda) não tô subindo as paredes. Enfim, sou um ser pensante que passa por momentos bons e ruins.

O tema principal do meu post-divã de hoje é  sobre uma característica muito nerd talvez peculiar dessa minha cabeça pensante: tentar “algoritmizar” (creio que não exista esse verbo) e quantificar, ao extremo, as coisas da vida, em especial meus sentimentos. Pessoas mais antigas ou de outras áreas diriam que eu sou uma pessoa  sistemática, metódica. Ok, de fato, acho que essas seriam palavras do vocabulário comum que me descreveriam. E puxei isso da família da minha mãe. Conversem com minha vó, meu tio-avô, e entenderão perfeitamente. Um pouco é herança da cultura germânica desse lado da família. Mas eu falo de outra coisa: eu desde pequena tenho a mania de discretizar os meus sinais emocionais. Discretizar no sentido de tornar digital o analógico, de tentar amostrar uma função contínua. E isso acaba, de certa forma, gerando erros ao me expressar com as pessoas e até comigo mesma.

Lembro-me que, aos meus 11 anos, eu tinha um diário. Esses bem de menininhas, que ficam escrevendo sobre os gurizinhos que gostam. Eu, que sempre tive a tendência de viver meus amores platonicamente, estava entrando na adolescência e, pra variar, o coraçãozinho já estava pregando suas primeiras peças. Eu gostava, desde a quinta série (estava  na sétima) de um gurizinho quietinho da minha turma. Mas daquele jeito: eu ainda era muito criança, e ele jamais deveria saber (se minha amiga não tivesse aberto o bocão, hehe, mas faz parte). Pouco nos falávamos. Ele era muito tímido, e eu também. Hoje analisando, acho até que ele gostava de mim. Mas… deadlocks acontecem (não foi o primeiro). Só que aí surgiu nesse meio tempo um outro gurizinho, que não era tão tímido, e era muuuito querido. Encantador. Então, pela primeira vez, meu coraçãozinho ficou dividido. Até aí acho que tudo normal, eu (argh!) sou humana e como tal eu tenho um coração vagabundo um tanto vulnerável aos estímulos que recebe. O detalhe é: quando eu percebi essa “transição” de sentimentos, eu comecei, dia-após-dia, a estimar porcentagens de quanto eu estava gostando de um e de outro. Tipo, ontem, eu gostava 36% do Fulaninho e 64% do Ciclaninho. Hoje, 42% vs. 58%… E assim por diante. Até que o pobre do quietinho perdeu a vez por alguns dias. Mas aí também eu me decepcionei com o queridinho (que gostava de uma amiguinha minha), e ele perdeu de vez a porcentagem que passou tudo pro quietinho de novo. Que depois que terminou o ano e eu me mudei, nunca mais tivemos contato. Mas isso não importa. O que importa é que essa mania de tentar colocar em números e algoritmos as coisas que  a gente sente não funciona.

Sempre que a gente discretiza algo, a gente perde precisão. Dependendo o método, o errinho aparentemente pequenininho vai se propagando e acumulando, até gerar um errão, invalidando completamente a solução. E, pois bem… nesses momentos filosofantes eu começo a perceber discretizar sentimentos dá nisso. Perda de foco. Erro. FAIL. Não dá pra colocar a vida em bits.  Precisamos solucioná-la analiticamente, mesmo que seja muito difícil, aparentemente impraticável. Ou usar estratégias tipo dividir-pra-conquistar… Não sou contra sistematizar as soluções, mas nunca tentar quantificar ou  rotular essas coisas. Nessas horas eu admiro as pessoas impulsivas, que não passam nenhum filtro nos seus sentimentos antes de exteriorizá-los. Tá, eu sei que isso também gera problemas. Mas ainda assim, é mais verdadeiro do que robotizar a vida e gerar sentimentos equivocados.

Pois bem. Tô meio em dúvida se eu posto essa coisa. Quem me conhece talveeeez consiga associar alguma coisa com o que estou vivendo. Ou não. Eu, de fato, não tenho me aberto muito ultimamente. Quer dizer, minha vida é um livro aberto sobre as camadas mais superficiais da minha cabecinha. Tipo o Shrek, lembram?

Shrek: Pra sua informação, há mais do se imagina nos ogros.
Burro: Exemplo?
Shrek: Exemplo? Ok… Ah… Nós somos como cebolas.
Burro: Fedem?
Shrek: Sim. Não!
Burro: Oh. Fazem você chorar.
Shrek: Não.
Burro: Oh, deixa eles no sol e eles ficam marrons e soltam aqueles cabelinhos…
Shrek: Não! Camadas! As cebolas têm camadas, os ogros têm camadas. A cebola tem camadas, entendeu? Nós dois temos camadas.
Burro: Oh, vocês dois têm camadas. Oh. Sabe, nem todo mundo gosta de cebolas. Bolo! Todo mundo adora bolo! E tem camadas.
Shrek: Eu não ligo pro que todo mundo gosta! Ogros não são como bolos.

Mas nenhum humano conhece o interior dessa cebola.

Por hoje é só pessoal!

2 thoughts on “Colocando a vida em bits e cebolas.

  1. Engraçado, sempre tentei racionalizar meus sentimentos também. E isso gera milhões de dúvidas e incertezas quanto a como reagir às coisas. Mas não dá pra dizer, quando algo acontece, “peraí, vou pra casa pensar em como reagir e amanhã a gente recomeça daqui, ok?”. 🙁
    No fim das contas, talvez não sempre, mas nos momentos mais importantes, o melhor seja mesmo deixar o coração mandar, e não a cabeça. É difícil, mas é só treinando que se consegue… 🙂

  2. Berni says:

    Hahahahah genial, eu nunca pensei desse jeito,
    Quantificar o amor é banal, sei isso do fundo do meu peito.

    Gostar de duas pessoas ao mesmo tempo é complicado, e atribuir um número a cada mais ainda,
    Quando uma age de modo indesejado, subtraimos e somamos, é a coisa mais linda.

    Mas fazer isso é errado, quando crescemos sabemos melhor,
    Digitalizar sentimentos é engraçado, só que aí as coisas vão de mal a pior.

    Se tu tiver em duvida em qual dos dois escolher, preste atenção em como eles tratam a própria genitora,
    então não perde tempo, selecione o que a tratar melhor, professora.

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